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Queime minha língua: pondo erro na boca dos outros


Falar e escrever são duas modalidades diferentes de um idioma, decerto, mas restam várias disputas sobre como tratar essas diferenças. Você gostaria de aparecer na televisão com uma legenda apontando “eu falo português errado”?

O problema fica claro quando alguém resolve escrever “como o outro fala”: “nóis”, “dois pastel” etc. Em qualquer língua há variações de sotaque; a pessoa que pronuncia “ô loco” ou “pashtéish” na maioria das vezes sabe como escrever “louco” ou “pastéis”.

Para fins acadêmicos, existem modalidades de transcrição do discurso oral que consideram imprescindível marcar essas variações de pronúncia. Talvez devessem usar os símbolos fonéticos para tudo se quisessem fazer o trabalho com mais segurança: “tɛRa” em lugar de “terra”, “ʃa” no lugar de “chá” e daí em diante. Mas não o fazem; usam uma mistura da ortografia culta com “criativismos” como aqueles mostrados acima.

Nesse caso, a questão ideológica subjacente é quanto do discurso utilizará a ortografia culta e quanto (porque o pesquisador estranha a fala alheia) ganhará grafias fora do padrão. Basta imaginar o paulista transcrevendo com xis todos os esses do fluminense.

A televisão tem feito experimentos quanto a isso. Os exemplos abaixo foram tirados do programa Fantástico, da TV Globo, que utiliza legendas quando o som não está suficientemente claro para o espectador.

No primeiro caso, a personagem da reportagem emite um erro de concordância, que aparece em destaque. Os professores de transcrição do discurso oral provavelmente concordariam com a marcação, pois seria boa vontade demais mudar a pontuação (“Olha que lindão: a baía”) só para salvar a pele do falante. Esse caso foi fácil.

Antes disso, a reportagem passou por um caso um pouco menos fácil:

Como não se trata de um trabalho acadêmico sobre a pronúncia da modalidade televisiva do português falado no Brasil, a edição poderia ter ficado melhor com “está” (pressupondo que, para destacar o “tá”, o revisor considerou essa forma errada) ou mesmo sem o destaque (caso fôssemos considerar que o discurso oral admite esse tipo de palavra como válida). Mas esse caso também passa; afinal, a pessoa sabe que não pronunciou a palavra inteira.

O que realmente afronta o falante, como uma imposição ortoépica, é marcarem erro num caso como este:

O falante sabe que “pras” equivale a “para as”. Marcar como errado é como escrever “nóis” quando um pobre fala: desnecessário ou preconceituoso. Ademais, se a vontade fosse ensinar os leitores, o exemplo correto seria mais ilustrativo que a incorreção em itálico. Que tal escrever “noz” quando o locutor disser “nós vamos apresentar”, só para contrariar?

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