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Aulas às segundas

Ir a um evento cultural na segunda-feira à noite tem um toque de exclusividade. Afinal, “bacana” sai de segunda a quarta; as noites de quinta a domingo ficam para o resto, certo? Por acaso (ou porque os eventos não tinham a preferência popular que os fizesse cair na quinta ou na sexta), tive duas noites de segunda-feira enriquecedoras.
Em 18 de abril, o grupo de Pina Bausch dançou na capital paulista Ten Chi, de 2004, espetáculo baseado em pesquisa sobre o Japão.
A lição primeira da peça é a de que, para apresentar a cultura de um país, não é preciso ser óbvio.
Cenário escuro, uma nadadeira caudal de baleia dizem o suficiente sobre o que vamos ver.
É claro que a coreógrafa já tinha fugido ao óbvio com Masurca Fogo (que costumo chamar de “Portugal”)  e Água (“Brasil”), mas neste caso essa superação do trivial parece mais bem acabada.
É verdade que o espetáculo é também mais difícil, e, devoto de Pina, morta em 2009, eu quis culpar a companhia pelo fastio que sobrevém lá pelo terço final do espetáculo. Mas não é isso: deixe-se dormitar ao reflexo da imitação de neve que cai sobre o palco; os finais oníricos de Pina ganham com essa atitude.

Ten Chi

Mesmo para falar em estereótipos a companhia foge às obviedades. Com humor aparecem a delicadeza feminina imposta pela cultura nipônica, aparece o consumismo.

Entre tanta coisa diferente surge uma forma recorrente. O japonês difundiu muitos nomes na cultura ocidental. Daí a graça do momento em que a bailarina começa a falar palavras jogadas sem sintaxe, mas que todos entendem: samurai, sushi, Fujiyama.
São Paulo testemunhou naquele momento um entrecruzamento formal. Não sei quantas pessoas estiveram nesse espetáculo e na exposição Colateral 2, no Sesc Avenida Paulista, em 2008. Mas essas pessoas lembraram-se do vídeo Aiwa to Zen, de Candice Breitz.

Aiwa to Zen

A autora diz que, partindo para sua primeira visita a Tóquio, em 2002, anotou cerca de 150 palavras que ela conhecia do idioma asiático. Nomes próprios como Sega, Aiwa e Pikachu recheavam a lista. O resultado foi o vídeo em que atores japoneses dialogam usando apenas esse repertório: “- Sushi?  – Kurosawa”.

Quer dizer que esse tema estava “no ar” no início dos anos 2000?

A retomada de temas compartilhados inconscientemente, a apropriação do erudito pelo popular e vice-versa foram o eixo da aula de 25 de abril. Uma aula-concerto de José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski (“Nas palavras das canções”), oferecida pelos Encontros Abril Educação, em evento que reuniu sobretudo professores do ensino básico, autores e profissionais dos selos Ática e Scipione.

Entre uma canção e outra, os músicos e intelectuais demonstraram seu argumento de que a música popular retoma temas e formas da cultura erudita, que por sua vez se atualiza com o conhecimento dessa mistura. Diferentemente das paródias do Japão, o esforço é o de justificar cada citação, que portanto não é simplesmente “óbvia” ou “atirada” na música contemporânea.

A apresentação é tão coesa que soa como uma justificativa teórica para vender seu próprio trabalho. Mas os professores na plateia estavam interessados mesmo em cantar junto com Wisnik a versão musicada de um poema de Gregório de Matos.

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