Tolerância brasileira

Quando a TV por assinatura começou se popularizar, muitos perguntavam por que havia intervalos comerciais, se pagavam pela programação. Sua mensalidade já não deveria cobrir os gastos que a TV aberta paga por meio da venda de anúncios? Não é suficiente, responde a indústria.
Lembro-me também de ficar ofendido quando pela primeira vez um forro de assento de ônibus ou avião ostensivamente feriu minha dignidade.
Na semana passada viajei num avião encarando não um, mas dois anúncios a dois palmos de meus olhos.
Os monitores de vídeo não transmitiram filmes de ficção nem desenhos animados; além da propaganda institucional da companhia aérea, antes de decolar os passageiros vimos (e fomos obrigados a ouvir, a despeito da tecnologia de fone de ouvido, disponível no voo) quatro filmes de propaganda. Esse financiamento paralelo faz parte do processo de barateamento das passagens aéreas, certo?

"Você viaja de olho aberto porque quer"

No retorno, em avião de uma companhia estrangeira que cobrou menos pela passagem, não encontrei essa perversão comunicacional em nenhuma das formas citadas (mas a aeronave não tinha monitores de vídeo).

Um exemplo como esse evidentemente não é suficiente para dizer que o capitalismo brasileiro é diferente daquele vigente no resto do mundo. Mas faz pensar numa característica típica desse espírito nacional: a tolerância. A mesma virtude de tolerar o diferente, de não reagir violentamente, é o defeito de aceitar relações incômodas ou injustas.

Hoje o modelo da TV paga está estabelecido; não mais escuto questionamentos sobre pagar para ver propaganda. Nesse universo, talvez a disputa de forças do momento seja o som dos comerciais, que costumam ter um volume mais alto do que o “conteúdo” da programação.

De resto, a propaganda brasileira comercial é em geral louvada por ser tão bem produzida que a gente a considera um entretenimento, não um aborrecimento. É feio ser intolerante com os criativos.

A tolerância brasileira ao crime, à corrupção, à barbárie rende muita discussão e deve ser considerada mais importante do que as anedotas de publicidade deste texto. O singelo argumento aqui é que são todas facetas dessa mesma característica. A tolerância está sendo testada.

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~ por alegorista em 2011/06/01.

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