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Dança para uma plateia adolescente

Sucesso! Não há mais assento na plateia!

(diretor de teatro que não entendeu a reforma ortográfica)

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Certos espetáculos atraem um público ávido por encontrar grande arte; outros servem não apenas para preencher o tempo restante, mas também para dar uma chance a quem quer mostrar seu trabalho. Como a demanda por estes últimos tende a ser menor, a esperança dos artistas pouco incluídos reside em programas de incentivo, como concursos e eventos subsidiados.

As criações de Ismael Ivo são do primeiro tipo; em sua apresentação no SESC Pinheiros, em junho, havia na plateia muitas das figuras de sempre da dança em São Paulo. Os elogios à técnica dos jovens bailarinos de Babilônia soavam ainda depois do longo aplauso.

Mas o principal motor do aplauso eram jovens de escola pública, trazidos devido a um programa estadual de incentivo ao consumo de dança. Os rapazes aplaudiam (e comentavam) as bailarinas; as garotas aderiram à brincadeira e reforçaram sua reverência ao elenco masculino. O assanhamento começara evidentemente antes da abertura do espetáculo, momento em que o coreógrafo fez um divertido papel ao ralhar com os jovens para que respeitassem a obra (mais detalhes sobre a personalidade de Ismael Ivo estão no perfil que escrevi para a Cult).

Esse cruzamento de públicos deve ficar mais comum com o encerramento das atividades do Teatro de Dança, que nos últimos anos vinha abrigando essa formação de público e profissionais.

Lembro-me, nesse teatro subterrâneo do Edifício Itália, de uma plateia adolescente diante de Giselle, o balé romântico, careta (tanto quanto uma bela fantasmagoria pode ser “careta”), sem essa de multiplicar personagens ou outras invenções contemporâneas.

Que "Black Swan", que nada; "Giselle" é que é sobrenatural.

A algazarra era a mesma; a cena igualmente acabou impondo o silêncio; o aplauso final foi também enérgico, embora menos ostensivamente sexualizado (e a despeito, lembremos, de o balé usar roupa mais colada que a dança contemporânea).

O argumento exemplificado por esta crônica não é o de que para os adolescentes tanto faz ver “arte de vanguarda” ou “teatro escolar”. Pedagogicamente bem contextualizados pela escola, tanto os astros da intelectualidade quanto o repertório tradicional podem render muito horizonte.

Aponto apenas o fechamento de um espaço. Suponho que a demanda seja suprida por outros espaços públicos em reforma e construção, bem como por entidades como o SESC. A mistura de estudantes em caravana e público especializado pode ser enriquecedora para ambas as partes.

Mas, enquanto houvesse o Teatro de Dança no Edifício Itália, talvez alguns garotos tivessem a ideia de um dia, saindo de um balé romântico com a namorada, subir ao Terraço Itália e pedir sua mão em casamento. Não é qualquer teatro que oferece isso.

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