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Lista: palavras que sempre esqueço

Certas palavras a gente lembra que sempre esquece. Quando elas fazem falta, não adianta esperar que a pessoa ao lado complete a frase.

Damos voltas, tentando cercar o conceito do que dizíamos, mas não há definição que satisfaça a carência, nenhum sinônimo parece adequado. Seriam palavras “favoritas” se o cérebro as deixasse à disposição.

Para não sofrer mais com isso, anotei em minha caderneta, em 1998, uma lista de palavras que eu sempre esquecia. Ela foi útil enquanto eu carreguei aquela caderneta. E mais: esse reforço mnemônico foi ótimo para deixar de esquecer algumas delas.

Segue a lista, com um acréscimo.

1) Silhueta

Grave.

A primeira. Mas que “sombra”, que nada! Definir um vulto, desde a infância, para mim é falar em “silhueta”. Só que a palavra não vinha. Se eu soubesse desenhar, talvez tentasse usar a palavra “contorno”, mas evidentemente não seria a mesma coisa.

2) Metalinguagem

Passei a adolescência querendo lembrar essa palavra. Quando fiz a lista, ela já estava quase na ponta da língua.

3) Aréola

Quem pôs essa palavra aí? Bem, é esse o tipo de “erudição” que impressiona meninos. Mas eu já estava passando da idade de invocá-la numa mesa de bar quando fiz a lista original.

4) Dinâmico

5) Especular

6) Altruísta

Essas são para o neurolinguista explicar: será que colocar essas palavrinhas na lista só serviu para esquecê-las? Não fazem parte de meu cotidiano.

7) Simetria

Essa não estava na lista, pois não veio à memória. Cerca de dois anos antes, lembro-me de, após dias de desespero colegial, parar diante de um professor de Biologia e traçar uma linha em minha testa com a mão até ele adivinhar, como num jogo de mímica: “simetria bilateral”.

Trata-se de uma palavra que ainda esqueço. As próximas também (fica o recado para os amigos, quando eu emudecer):

8) Eufemismo

Quero xingar alguém dizendo “burro é eufemismo” e acabo em algo como “burro seria uma forma atenuada, com efeito meramente de polidez, de caracterizá-lo”.

E, para encerrar fazendo pose:

9) Maniqueísmo

Que outra palavra é tão chique para criticar o simplismo do pensamento dualista dos outros, suas oposições mal matizadas, a ingenuidade de sua crítica? Pena que sempre a esqueço.

4 replies on “Lista: palavras que sempre esqueço”

Oi Ernane, tudo bom?

Questões interessantes que você coloca.

Nos meus estudos sobre HQs e também em minha experiência como leitor, comprovei a real força dos gibis enquanto agente formador de diferentes aspectos: cultural, linguístico e comportamental.

Nesse sentido, concordo em parte com sua observação de que há um sentimento geral de “idiotização” das HQs. Explico: desde sua origem, os quadrinhos sempre se colocaram como um produto cultural bem acabado, feito para as massas e que representa desejos delas e espelhando, em certa medida, aquilo que já existe no corpo da cultura.

Evidentemente que há ápices de qualidade em texto e imagem que saltam aos olhos, mas, na média, é assim mesmo. As HQs sempre sofreram acusações de serem “baixa literatura” ou ainda de serem “alienantes”.

Fico com receio, ao ver seu post sobre G.I Joe especialmente, de ficar preso a um certo saudosismo, aquele que aponta que tudo de antes na cultura pop possuía mais qualidade. É o que se diz da música (“o Rock morreu”), do cinema, etc.

Para mim, tem muito mais ligação com uma relação emocional que os quadrinhos geram em seus espectadores (prefiro esse termo a “leitor”, pois acredito que explica melhor a relação com uma mídia que combina texto e imagem). Ficamos com a impressão de que aquilo que era relevante para nós era melhor do que o produzido atualmente.

Bom, parece que até agora discordei de você. Mas eu disse que concordava em partes, então chega o ponto em que enxergo o mesmo que você. É impossível não ver a queda na qualidade do texto atual na comparação com o anterior. As conjugações e a construção mais rica do texto é evidente.

Para te responder objetivamente: penso que estamos vivendo um tempo de vocabulário pior e também diferente do espectador. E mesmo que as HQs sejam formadoras, acho muito complicado colocar nelas a responsabilidade de mudar a forma pela qual o público jovem está se relacionando com a norma culta. Ao seguir pelo caminho de um certo coloquialismo, os gibis fogem do perigo de se tornarem irrelevantes para essa geração.

Porém, é preciso ressaltar: pelo menos nos EUA, maior produtor mundial de HQs, a norma culta do inglês ainda é a praxe. As construções mais “pobres” são a exceção.

Enfim… tem muito a discutir sobre isso.

Aguardo suas impressões.

Abraço,


Thiago Costa

Caro Thiago,

seu alerta sobre a parcialidade daqueles que falam sobre o “belo passado” é dos mais importantes. Em minha defesa, posso apenas dizer que, no texto sobre os Comandos em Ação, evitei mostrar o quadrinho fundo de quintal que encontrei atualmente na banca, que seria um exemplo muito fácil. Evitei também, ao escrever a lista que ora comentamos, abrir uma cruzadinha voltada ao público infantil na qual eu poderia apostar que, em lugar da palavra “silhueta”, encontraria “sombra” (e não deu outra!).
Tento ater-me ao argumento geral de que, em decorrência tanto da especialização do mercado quanto de uma evolução da pedagogia, as crianças deixaram de receber dos pais um material que corresponda a uma aspiração de adultez (pelo vocabulário mais rico, pelo tema mais sério), mergulhando numa fantasia etérea de “mundo mágico das crianças”.
Para os fãs de quadrinhos, o problema é que pai e filho acabam lendo revistas necessariamente diferentes, não?

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