Categorias
alegoria arte poesia queime minha língua teatro

Teatro em três atos

I. Wagner em São Paulo

A valquíria é realmente uma bela ópera. A montagem no Municipal de São Paulo foi bastante elogiada pela qualidade dos profissionais envolvidos, inclusive na “brasilidade” de sua adaptação (os “bois” da cavalgada das valquírias eram uma menção à cavalhada e por aí vai). Os ingressos a preços acessíveis esgotaram-se rapidamente; o público mais amplo do que os conhecedores deu um ar jovial ao teatro, como uma sala de cinema hollywoodiano.

Mas o que me fez pensar foi a liberdade, ou melhor, o problema do determinismo, como tema central dessa peça de Wagner, segunda parte da “tetralogia do anel”.

No microcosmo da peça, temos jovens que se rebelam contra as convenções: contra o poder aristocrático, o casamento arranjado, o tabu do incesto. São “livres”, o que interessa ao deus Wotan, que precisa de um herói concebido fora da relação mecânica de causa e consequência, promessa e dívida que rege a vida dos deuses. Um herói “livre” será útil em capítulos posteriores da saga.

Mas temos deuses pensando coisas maiores ali. Wotan, que comanda o mundo, declara-se o menos livre dos seres, pois é regido por seus compromissos. Que ações não estão já previstas, inscritas em quem somos, como consequências da mecânica universal desde o pontapé inicial do Big Bang?

É por isso que A valquíria é o nome da peça.  É a valquíria Brünnhilde quem causa a mudança de rumo da história, rompe a cadeia lógica que, mesmo a contragosto, os deuses mantinham.

Quando vejo um futuro de que não gosto no horizonte, pergunto-me se tenho esse poder de contrariar o mundo.

II. A cavalgada das legendas

É a ópera aprendendo com o cinema.

A maioria do público de uma ópera recorre à legenda: mesmo que conheçam (ou entendam) o texto cantado, muitas pessoas não podem evitar olhar para aquilo que ostensivamente está lá. Eu não conheço o texto d’A valquíria, por isso li voluntariamente.

Deixemos para lá a velha campanha “Contrate um revisor de texto”, muito necessária neste caso. Não é isso o que mais chateia.

Que tal, antes de a obra acabar, antes do último suspiro, ler: “Legendas XXX”? Quem frequenta cinemas já está acostumado a luzes que se acendem antes do fim do filme; aliás foi do cinema que veio a prática de anunciar nas legendas que o filme acabou antes do efetivo encerramento.

III. Tudo acaba em ópera

Enquanto em São Paulo a ópera wagneriana ganha uma feição malemolente, tupiniquim, na Alemanha o Terceiro Mundo emergente ganha pompa operística.

Apresentaram-se no Goethe-Institut, em São Paulo, os artistas Christopher Roth e Georg Diez, com seu projeto 2081.li. Não se tratava de uma obra, mas de uma discussão sobre como vão continuar seu projeto. Eles editaram livros com entrevistas sobre os anos de 1980 e 1981 com o objetivo de pensar 2081. Criaram uma ópera que descreve o futuro; estudantes universitários leram trechos do trabalho. Apostam no potencial de países como Índia e do Brasil e fazem boas brincadeiras com a preocupação contemporânea em evitar delitos (e a consequente restrição à liberdade individual).

Na saída do evento, o professor Lucio Agra ironizou: “Depois dizem que no Brasil tudo acaba em samba; lá tudo acaba em ópera!” Conversei com ele, que acrescentou: “O que me incomoda mesmo ali é a concepção de tempo, muito linear”.

Volta a questão do determinismo. Dá para pensar seriamente uma data assim longínqua? Qual é o engajamento político necessário nesse debate?

Minha sugestão foi que, desde já, estabeleçam-se pelo menos dois partidos: o partido dos humanos e o dos robôs. Vejo problemas para os humanistas no horizonte.

A Valquíria
Fricka e Wotan batem um papo na "sala de ex-votos" do Valhalla

2 replies on “Teatro em três atos”

Olá, Juliana,

obrigado pela visita!
É pena que eu enxergue mal e não tenha aproveitado muito o trabalho de cenografia. Atenção, amigos secretos: aceito binóculo de presente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s