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Conto: A onça no jardim

A onça no jardim

 

No caminho por meu bairro, passei diante das casas de alto padrão. Absurdas em sua ostentação. Inviáveis num mundo justo, não haveria espaço para cada família viver numa dessas, era o que eu pensava no passeio.

Vi o Gaston, que foi meu colega em algum trabalho. Chegava a uma mansão carregando uma sacola plástica. Estou certo de que tinha pão ali dentro. Ele devia estar voltando de uma rápida visita à padaria.

Entrou pelo portão de serviço da propriedade de muros altos. Observei do outro lado da rua enquanto ele adentrava: a estreita faixa vertical revelada pelo portão aberto dava visão a uma criada de uniforme no jardim. O rapaz olhou para mim e fez pressa, deixando o portão para a solícita empregada fechar.

Continuei pensativo a caminhada em direção ao ponto de ônibus. Gaston não é empregado; deve ser filho do dono da casa. Apressou-se porque tem vergonha de ser muito rico? Ou não me reconheceu e quis se precaver da possibilidade de um assalto?

Havia mais uma casa daquelas sendo construída no mesmo quarteirão. É claro que eu gostaria de morar ali. Mas esses casarões são um desperdício, são uma injustiça a ser superada! Ele poderia ao menos ter-me convidado para tomar uma água, eu poderia conhecer o interior. Teria leões de pedra? Talvez um tigre de verdade numa jaula.

Tomei ônibus e mais ônibus. Meu destino era a casa de praia de minha família, a horas de viagem da cidade. Cheguei ao recanto após mais uma caminhada.

Abri as portas para ventilar; o calor e os mosquitos agravavam o cansaço da viagem, o incômodo táctil de meu corpo sujo.

Fiquei a olhar sem atenção para o jardim, descansando. Demorei a perceber um animal deitado sobre o gramado, perto da entrada de casa. Era uma pequena onça parda, repousando tranquila.

Corri para dentro. Ela acompanhava meus movimentos quase sem se mover, como se fosse um gato de estimação.

Sobre uma porta pairava, como troféu, a espada que um dia foi de meu avô. Não sei qual é a história dessa espada, mas é nobre. Talvez seja a única coisa que a família do Gaston não tenha e que nós temos. Subi numa cadeira e tomei a arma como garantia.

A jaguara não fugiu enquanto me aproximava dela com a espada, cuja lâmina conservava ainda algum corte.

A porção traseira esquerda do animal beirava o alpendre. Pisei na grama atrás da fera. Ela voltou a cabeça um pouco, apontando sua orelha em minha direção.

Fiquei admirando sua imperfeição de bicho do mato, de pelagem ralada, postura irregular, respiração ferina.

Eu não sabia se precisava enxotá-la. Não sentia medo. Apenas temi que nunca viesse outra oportunidade. Como um nobre, um rico, eu mataria a onça com minha espada.

Faltou um pouco de pontaria. A espada não penetrou de trás em direção à cabeça, como planejado, mas entrou por uma costela esquerda.

O animal levantou-se, sem sair do lugar. Amedrontado, dei outra estocada.

Parada sobre as quatro patas, a onça tremia levemente. Na retirada da espada, ajudei a primeira ferida a se abrir na direção do ventre jaguarino.

Num lento e doído avançar da pata dianteira esquerda, a onça causou o rompimento de mais um tecido. Ainda ereto como um cão de guarda, o bicho começou a perder vísceras.

Logo começaram a cair da barriga, junto com a carne ensanguentada, um saco plástico e um copo de iogurte, seguidos de mais lixo industrializado, como se minha espada houvesse cortado um saco deixado à rua por um veranista qualquer.

A onça nem mesmo rugiu.

 

Ernane Guimarães Neto

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