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Lista: três candidatos ao Oscar

Indicação ao Oscar pode não ser atestado de qualidade para um filme, mas sempre chama atenção. Coincidentemente, os três filmes que me levaram mais recentemente às salas de cinema são finalistas da categoria “melhor filme” dessa premiação.

O divertido nessa coincidência é que os três usam abordagens narrativas bem distintas; qual dessas queremos privilegiar? É disso, e não de suas chances em algum prêmio, nem de suas origens na literatura e na história, que se fala superficialmente abaixo.

1. Contemporânea ironia: Django livre

Stacey Sher, Reginald Hudlin and Pilar Savone, Producers

Já estamos acostumados há umas duas décadas à violência ridícula, ao excesso que transcende os clichês que Quentin Tarantino muito bem sabe explorar. A vantagem das produções desse diretor é que, diferentemente da violência gratuita típica dos filmes dos anos 1990 em geral, suas películas sempre foram, no mínimo, questionadoras de padrões estéticos. Mas podemos esperar mais que isso. E Django livre entrega: mais que uma paródia de faroeste, apresenta uma interessante provocação sobre racismo. A ironia fica completa com uma dose cavalar de anti-heroísmo e um paralelo com a mitologia nórdica. Recomendável para quem ainda não se cansou de ver sangue jorrar.

2. O romantismo de sempre: Les misérables

Tim Bevan, Eric Fellner, Debra Hayward and Cameron Mackintosh, Producers

Em seus cinco volumes, desconfio que o romance histórico Os miseráveis, de Victor Hugo, não seja só uma historieta de amor. Já as grandes produções do teatro musical, mesmo que se estendam por três horas ou mais, precisam condensar seus roteiros ao mais lacrimoso possível. Em outras palavras, o teatro musical faz parte daquele esforço civilizacional de manter no povo uma ideia ultrarromântica de arte. Les misérables, que mantém o título em Francês na produção teatral anglófona, é uma dos maiores sucessos dessa categoria.

O cinema “para a família” é, desde o desenvolvimento dos grandes estúdios, o porta-estandarte desse esforço, razão pela qual uma adaptação de musical para filme emocionante é coisa esperada com anseio. Ressalve-se que uma parcela grande daquela “família” não aguenta um filme totalmente cantado e abandona a projeção no meio.

Além de visualmente deslumbrante, Les misérables é uma produção que deixa entrever a alegoria social de Victor Hugo no meio da enxurrada de emoção. Recomendável para quem se inspira com histórias de redenção.

3. Alegoria é para ser universal: As aventuras de Pi

Gil Netter, Ang Lee and David Womark, Producers

Sei que incorro em ingenuidade ao tratar uma grande produção como “filme de autor”, mas digo: Ang Lee não decepciona quando se propõe a traduzir uma proposta para filme. Que sua homenagem ao cinema de artes marciais seja minha prova favorita.

Como o mais interessante no filme é a alegoria que se apresenta, podemos passar batido sobre a discussão de originalidade ou imitação no romance que lhe deu origem, o qual retoma o tema de uma obra de Moacyr Scliar. Não li o romance de Yann Martel, mas sei que construir uma alegoria em texto é diferente de fazê-la em filme. Na arquitetura do romance, os nomes das coisas são explícitos. O tempo para desenvolver as relações entre as coisas permite apresentar melhor a ideia que não é dita, o discurso alegórico. A representação cinematográfica escolherá alguma coisa (e, felizmente, este filme não privilegia só “as aventuras” ou as lágrimas).

Viajar pelo oceano acompanhado de um tigre é metáfora de quê? O filme dá pistas, mas não é o drama barroco alemão; se aparecer algum fantasma, ele não vai vir carregando uma bandeira com seu nome e significado. Ou estou enganado? Se o filme fosse produzido para um público afeito ao discurso alegórico, talvez tivesse uma estrutura ligeiramente diferente e não precisasse de um final anticlimático, em que a fantasia é quebrada e tudo se explica. Mesmo assim, eu torceria por um filme como este numa premiação. Pois ele é a arquitetura da metáfora em imagem e som; é belo e sábio, mesmo quando horrível; tem a artística pretensão da atemporalidade. Recomendável sem restrições.

One reply on “Lista: três candidatos ao Oscar”

Brilhante analise aos três indicados! Mas vou torcer muito para Aventuras de Py pois além de tudo o que ressaltou Ernane, a elaboração em 3D neste filme é um marco nesta era digital. Um espetáculo inesquecível !

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