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Triarquia dos refrigerantes perdidos

Num acesso repentino de desejo de comer uma boa pamonha, fui conhecer o Tubaína Bar.

O lugar é cuidadosamente decorado em estilo retrô (a casa vende bem a ideia de que reaproveitar mobília e louça é ecologicamente correto). Para quem estuda a cultura brasileira de forma ampla, esse boteco chique tem o evidente apelo de reunir rótulos de todo o país. Mas creio que a maioria dos frequentadores esteja interessada mesmo é em comida gordurosa e bebidas gasosas.

É claro que acompanho a definição estrita de “tubaína”, que aprendi com meu primo Zug (ele dedicou um trabalho de conclusão de curso a essas delícias): tubaína é o refrigerante de guaraná com o sabor artificial “tutti frutti”. Acrescento que seu veículo ideal é a garrafa de vidro de 600 ml.

O Tubaína Bar tem uma definição mais rasteira de tubaína, chamando por esse nome vários “refrigerantes populares”. O lado bom é que a casa tem muitas opções de refrigerante de diversos sabores e vários cantos do Brasil (embora, aparentemente, a bebida de maior sucesso ali seja a peruana Inca Kola).

Inspirado por essa experiência, lembro três refrigerantes que considero notáveis. Não que eu reverencie as bebidas doces e gasosas. Mas é interessante quando a cultura popular resolve tratar os refrigerantes como se fossem objetos dos enólogos ou chocolatiers. Pois desse modo é quebrada a regra de exclusividade dos produtos de luxo, a lei da efemeridade dos vinhos, que não se repetem de safra a safra: refrigerantes são baratos e, até certo ponto, são produzidos com as mesmas qualidades por muitos anos. Para evidenciar o contraste entre alta cultura e cultura “pop”, talvez eles mereçam uma análise em estilo enológico.

Quando se trata de bebidas curiosas, reinam (pelo menos em minha mente) estes refrigerantes, que eu gostaria muito de ter conhecido em garrafa de vidro:

1. O rei do Maranhão

Não, não se trata de alguma família de políticos em atitude paradoxal diante do republicanismo brasileiro. Este comentário trata de bebidas gasosas. É claro, portanto, que o rei do Maranhão é o Guaraná Jesus.

Foto: Flávio Chubes, Deborah Vasques, Paulo Filipe, Lucas Queiroz e Thiza Vasquez

Eu demorei para experimentá-lo (talvez porque eu nunca tenha ido ao Maranhão), mas bons cunhados me presentearam com essa célebre fórmula rosada numa latinha de alumínio.

Análise do Guaraná Jesus – Sua coloração rosé aberta surpreende o mais acostumado bebedor de guaraná. O sabor adstringente incomodou o especialista aqui, mas agrada a quem gosta de uma boa agulhada.

2. O rei no exílio

O Mineirinho é, além de um refrigerante curioso, um dos favoritos deste crítico. A base de chapéu-de-couro, a bebida faz bonito em qualquer almoço em família. Diz a lenda que o grande sucesso motivou a saída do fabricante da Zona da Mata mineira para o Rio de Janeiro, onde é produzido e celebrado.

Análise do Mineirinho – A coloração acastanhada intensa contrasta com a impressão aveludada na boca. Encorpado, o “refri” combina elegantemente as madeiras do chapéu-de-couro com o açúcar residual.

3. O rei posto

O Abacatinho foi o grande rival do Mineirinho em meados do século XX. Diz-se que o sucesso do Mineirinho em Ubá era tamanho que o mesmo químico foi contratado para elaborar a fórmula do concorrente, com a folha do abacateiro substituindo com sucesso o ingrediente-base do mais antigo. Aparentemente incomodou o Mineirinho, que foi fazer sucesso fora.

Ouvia com curiosidade o relato de meu amigo Yuri, de Ubá, sobre essa bebida (que não tem gosto de abacate). Dos três analisados, é o refrigerante mais difícil de encontrar, ficando restrito àquela região mineira. Graças a um irmão que viaja muito, tive o prazer de prová-lo.

Análise do Abacatinho – Frutado, mais curto e fugidio que o rival. A vantagem é que é uma bebida menos adamada.

ErnaneAbacatinho

(Sim, a pamonha era ótima!)

3 replies on “Triarquia dos refrigerantes perdidos”

Muito bom! mas entre Mineirinho e Abacatinho, eu ainda prefiro o Abacatinho…:D
Eu quando fui ao Tubaína bar, fiquei com a impressão que estava mais pra Itubaína bar…aliás, nem sabia que tinha pamonha lá… é boa mesmo? Abraço!

Só comi a pamonha doce, boa, dia desses volto para a salgada.
Agora ando com vontade é do enroladinho de queijo das padarias goianienses!

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