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O humanismo é mais do que vinte centavos

Se eu fosse aclamado rei do mundo, substituiria o capitalismo por uma sociedade-escola. Ninguém precisa me contar que essa ideia abstrata está longe da realidade, mas, para chegar mais perto do que queremos, é preciso fazer algum esforço. Isto é ser humano: inventar a própria vida, criar civilização.

1. Estouro de manada

Relutei de início a apoiar as manifestações que ora operam mudanças na mídia brasileira. Em São Paulo, a motivação inicial, “oficial”, era o aumento das tarifas de ônibus. Em teoria, o apoio ao transporte público combina com a ideia de cidade que defendo imediatamente (e, em alguma medida, com aqueles meus ideais distantes).

Mas a quem serviria aquela massa de manobra adolescente que, não sabendo bem o que quer, vinha à região onde vivo, no centro da capital paulista, para beber, xingar a polícia e, em alguns casos, depredar?

CartazColabora

Uma boa resposta apareceu no cartaz “desculpe o transtorno, estamos mudando o país“, amplamente utilizado nas redes sociais: é difícil mudar alguma coisa sem atrapalhar o andamento do entorno. E, claro, as pessoas esclarecidas que cada vez mais engrossam o movimento querem uma mudança mais profunda do que aumentar ou não uma tarifa.

Reforma política e a denúncia da corrupção tornaram-se elos entre as gentes diferentes que compareceram aos eventos. Não é por causa da minoria baderneira que me incomodou com o protesto da quinta-feira, 13 de junho, que eu deveria me  omitir. Por causa da truculência policial no mesmo dia, sim, eu tinha mais um estímulo a participar.

Afinal, em aglomerações, em eventos conturbados, quando falta argumento, as pessoas podem acabar cedendo a instintos animais, mas a habilidade do animal racional é não se deixar levar por isso.

Resumindo essas propostas nesse contexto, fiz meu cartaz para participar da manifestação popular que partiu do Largo de Pinheiros na segunda-feira, 17 de junho.

2. De ratos e homens

Minha adesão a esse movimento apartidário e ainda sem forma definida coincidiu com o esclarecimento dos veículos jornalísticos brasileiros, que passaram a separar “baderneiros”, “organizadores dos movimentos” particulares e “manifestantes” em geral, com suas demandas diversas (de “queremos hospitais padrão FIFA” a democracia direta ou, no meu caso, a denúncia das regras atuais do jogo de poder).

Marchei do Largo de Pinheiros aos Jardins pela avenida Faria Lima, constatando o amadurecimento político de muitos dos presentes, mesmo quando discordavam (alguns contra e outros a favor da partidarização do movimento, alguns pelo serviço público privatizado de qualidade, outros pela estatização).

É claro que os instintos animalescos continuam presentes em nossos corpos. Atento aos riscos das grandes aglomerações, percebi que um “manifestante” que tentava “conversar comigo” na verdade agia como um punguista. Antes que ele tivesse oportunidade para efetivar seu delito, perguntei por que sua mão estava tão colada a meu bolso. Como um rato no mato, o bicho desapareceu na multidão,  vestindo a carapuça de batedor de carteira. Outros podem ter perdido objetos de valor, mas não foi por isso que deixei de acreditar em construir com as pessoas um castelo de ideias.

No dia seguinte, 18, a oposição entre civilização e barbárie atingiu um grau tão elevado de sofisticação que se justifica a notoriedade internacional que os eventos já recebem: uma minoria depreda a prefeitura, a maioria até reorganiza as grades colocadas pelas autoridades. Bandidos saqueiam lojas, a população, mais esclarecida, percebe a diferença entre política e caso de polícia.

3. Humanismo

A sociedade é uma constante construção humana; a omissão e a alienação também são formas de participar. A escolha é de cada um. Quando voltava para casa na noite de 17 de junho, muita gente ainda acorria para a elogiada manifestação pacífica em São Paulo. Nos Jardins, enquanto procurava um lugar onde tomar ônibus, um garoto pediu meu cartaz. “Leia a mensagem primeiro. Você concorda?”, perguntei. O jovem, aparentemente filho da sociedade abastada que habita aquele bairro, mostrou-se satisfeito com o texto. Talvez não lhe tenha passado pela cabeça que o poder econômico de seus pais seja fruto e semente de muita injustiça, antônimo de colaboração. Mas ele provavelmente avançou um passo nessa direção. E levou meu cartaz (agora nosso cartaz) de volta à luz: “mais colaboração, menos abuso de poder”.

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