São Paulo: desigualdade até na propaganda

•2013/10/11 • Deixe um Comentário
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O poste curvo no meio da foto receberá um relógio-propaganda para compor a paisagem urbana.

A propaganda comercial trata-nos como pessoas que tomam decisões com base em afeição, não razão. Embora a afeição seja uma condição inerente ao animal, a espécie sapiens sapiens costuma considerar que a escolha de um produto ou serviço menos por suas características intrínsecas do que por reconhecimento de marca é idiotice.
Portanto, a propaganda comercial trata-nos como idiotas.

A prefeitura de São Paulo reimpõe a propaganda comercial em espaços públicos, com uma regulamentação eficiente em termos capitalistas: a “cidade limpa” arrecada com propaganda que dá a hora, com anúncio no mobiliário dos serviços de transporte de massa.
Ao continuar a higienização implementada no governo Kassab, a administração Haddad fortalece a troca utilitarista: “cidade limpa” é quando os propagandistas autorizados, pagantes de tributos, assumem a responsabilidade municipal de corrigir a situação de pontos de ônibus depredados e veículos sujos. De poluição visual onipresente, a propaganda passa a ser oligopólio das marcas dirigido a serviços específicos, como ônibus e jardinagem.

Ninguém quer ser um idiota. Além de propaganda nas alças com que o passageiro tenta se equilibrar na trepidação, quando o carro não está tão cheio que as dispense, fala-se em distribuição de brindes (e propaganda). Uma regulamentação que permita propaganda ostensiva nos ônibus pode fazer muita gente se sentir idiota.
Alguns podem prescindir ao “tratamento de idiota” nos ônibus, deixando-os, em favor de caminhar ou, na maioria dos casos, colocar mais um veículo particular na rua.

É assim que se desenvolve uma desigualdade na capital paulista: a de propaganda, entre os “idiotas” que aceitam (e precisam aceitar, por falta de opção) a maquiagem do serviço público insuficiente, de um lado, e os “espertos” que puderem escolher carro, moto (com consequências diferentes, inclusive no tratamento publicitário). A expressão “esperteza”, popular no Brasil, opõe-se a “idiotice”, mas pode ser algo bom ou mau.
Os publicitários já levam em conta, em suas campanhas, as classes sociais do público; a diferença é só o tratamento diferenciado dado aos cidadãos de acordo com os meios de transporte que podem escolher. Na prática, uma continuidade na política de tratar os mais pobres como idiotas e os mais abastados como espertos.

Leia mais em

Análise – Em vez de benefícios para o cidadão, mobiliário urbano trouxe tropeços

50% aprovam publicidade nos pontos de ônibus de SP

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MTV ontem, CBN hoje

•2013/10/01 • 2 comentários
MaracatuAtomico2

“Maracatu atômico”, de Chico Science & Nação Zumbi, foi o último clipe exibido pela MTV.

Ontem acabou a MTV Brasil, hoje a CBN faz programação especial de aniversário; como esses meios de comunicação em especial afetaram as pessoas?
Em 1990, quando surgiu a MTV no canal 32 de UHF em São Paulo, só os universitários que mantinham uma república no meu prédio sabiam o que era o canal. Com eles pude ver a programação baseada em videoclipes de música popular.
[Kid Vinil relata, na programação de despedida da MTV, que recai sobre a alegria da chegada da emissora a sombra do monopólio do videoclipe firmado pela MTV com a indústria fonográfica. Seu Som Pop, que era uma das raras opções antes da MTV, seria uma das versões influentes do mundo musical prejudicadas com o tal monopólio. Sua apresentação de programas temáticos, como o dedicado ao tecnopop, de que me lembro como um exemplar destacado, fizeram parte da história da música no Brasil.]

No ano seguinte (ano de surgimento da CBN), amigos de escola diziam ligar diariamente para votar nos “dez mais” do Disk MTV. Eu logo me afastaria daquela programação musical “pop”, preferindo o acesso ao rock and roll propiciado por Gás Total, no meio da tarde. Quebrando baquetas numa almofada, eu acompanhava com gosto Ministry, Viper, o que aparecesse de pesado.  Fosse como fosse, os meninos da minha geração já éramos versados em “narrativa de videoclipe”.
Como na maioria de quem virou o século ouvindo música, pude afastar-me da TV desde adolescente, perseguindo meus gostos musicais particulares primeiro na rica base musical do Shopping Center Grandes Galerias, no centro de minha cidade, depois tendo a Internet como fonte ampla de música e vídeos.
Eu não era o único a deixar a MTV, que perdeu centralidade na cultura musical e, nos últimos anos, destacou-se mais pela produção cômica do que qualquer outra.

Enquanto a MTV declinava, a rede CBN ampliava-se pelo Brasil. Eu não sou o único ex-consumidor de TV musical (quando havia mais TV jornalística) que migrou para o rádio de notícias (quando a maioria das opções eram rádios musicais).
Na virada do século, eu comecei ouvindo CBN de manhã e à tarde, a caminho da universidade e na volta, e logo ouvia em todo horário em viagens de carro. A clareza de Sardenberg, a elegância de Maria Lydia, o engajamento de Juca Kfouri levaram este jovem professor de Filosofia em formação a pensar em mudar de área.
Será que o sucesso da CBN, em oposição à “obsolescência” da MTV, pode significar um século em que, como para mim naquele tempo, palavras como “furo”, “informação”, “denúncia”  é que sejam música para nossos ouvidos?

Comédia não manteve viva a MTV.
[O vídeo de despedida da MTV fala da importância do canal e joga a peteca para a nova MTV, em TV paga; quando passa a meia-noite, quem pega a peteca na TV aberta é a Ideal TV, com uma programação ordinária, sem estardalhaço.]
Hoje a CBN acordou em festa, com uma programação especial de 22 anos, que tem apresentadores em horários trocados. Quando ouço pela manhã as atrações Cony, Mosé e Xexéo falando sobre as pessoas reconhecerem suas vozes, lembro-me de poder perseguir as vozes tanto de Maria Lydia quanto Sardenberg por São Paulo, antes e depois de me tornar jornalista.
À tarde, abro o vídeo de estúdio para ver Mílton Jung e Roseann Kenneddy conversarem, por telefone, com Gustavo Petró sobre a história do mercado de jogos eletrônicos. Faz sentido: atualmente, vejo mais vídeos de jogos do que de música. Apenas engrosso a multidão nesses processos de evolução dos meios de comunicação.

O canal de TV, a emissora de rádio formam a cultura brasileira. A CBN forma sua continuidade; a MTV deixa muitos recomeços.

CBNBrasilriemdeJogos
A rádio CBN transmite imagens de estúdios em São Paulo e Rio de Janeiro.

Minha nova missão na PUC-SP

•2013/07/08 • 1 Comentário

O curso de Introdução ao Desenvolvimento de Jogos proposto por Mário Madureira Fontes foi incluído no programa de extensão da PUC-SP. O colega convidou-me a elaborar um programa para pessoas que queiram fazer jogos, mas não pretendam fazer uma nova graduação; para aqueles que queiram debater a nova cultura dos jogos, dos tablets ao tabuleiro; para quem sinta que sua empresa não sabe muito bem como criar aplicações úteis para o lúdico.

"The Missing Star", jogo produzido pela Fundação Padre Anchieta a partir de concepção minha e do colega Mário Madureira Fontes

“The Missing Star”, jogo produzido pela Fundação Padre Anchieta a partir de concepção minha e do colega Mário Madureira Fontes

Ludificação, sim

Mário e eu temos alguma experiência no uso de mecânicas de jogo para educação; já falei neste blog sobre nossa colaboração na feitura de um jogo que aplicasse o conteúdo de aulas de Inglês a uma aventura.
Atualmente, uma das palavras da moda nas empresas é gamification, referindo-se ao uso de elementos dos jogos (especialmente dos jogos eletrônicos) no trabalho, no comércio, na política. Um dos focos deste curso será a desmistificação dessas práticas, frequentemente adotadas sem planejamento, como se embelezar ou oferecer prêmios fossem providências suficientes para transformar em bom um serviço que nem funciona.
Será evidentemente uma ótima oportunidade para argumentar que a melhor palavra é ludificação. Nem gamification (como se usa entre os anglófonos) nem gameficação (ortograficamente fora de padrão tanto em Português quanto em Inglês): a ideia é pensar no lúdico em sua acepção mais ampla, não só relacionada a “jogos” (palavra que, como game, tende a sugerir regras e competição). Daí ludificação, pois, modernamente, a raiz latina de ludus carrega também o brincar, conotando liberdade, novidade, criatividade.
A escada-piano (http://www.thefuntheory.com) é um bom exemplo de ludificação que não é "videogamificação".

A escada-piano (http://www.thefuntheory.com) é um bom exemplo de ludificação que não é “videogamificação”.

Introdução ao Desenvolvimento de Jogos
Início: 17/8/2013
Término Previsto: 30/11/2013
Horário: sábados, das 9 às 13 horas

O humanismo é mais do que vinte centavos

•2013/06/19 • Deixe um Comentário

Se eu fosse aclamado rei do mundo, substituiria o capitalismo por uma sociedade-escola. Ninguém precisa me contar que essa ideia abstrata está longe da realidade, mas, para chegar mais perto do que queremos, é preciso fazer algum esforço. Isto é ser humano: inventar a própria vida, criar civilização.

1. Estouro de manada

Relutei de início a apoiar as manifestações que ora operam mudanças na mídia brasileira. Em São Paulo, a motivação inicial, “oficial”, era o aumento das tarifas de ônibus. Em teoria, o apoio ao transporte público combina com a ideia de cidade que defendo imediatamente (e, em alguma medida, com aqueles meus ideais distantes).

Mas a quem serviria aquela massa de manobra adolescente que, não sabendo bem o que quer, vinha à região onde vivo, no centro da capital paulista, para beber, xingar a polícia e, em alguns casos, depredar?

CartazColabora

Uma boa resposta apareceu no cartaz “desculpe o transtorno, estamos mudando o país“, amplamente utilizado nas redes sociais: é difícil mudar alguma coisa sem atrapalhar o andamento do entorno. E, claro, as pessoas esclarecidas que cada vez mais engrossam o movimento querem uma mudança mais profunda do que aumentar ou não uma tarifa.

Reforma política e a denúncia da corrupção tornaram-se elos entre as gentes diferentes que compareceram aos eventos. Não é por causa da minoria baderneira que me incomodou com o protesto da quinta-feira, 13 de junho, que eu deveria me  omitir. Por causa da truculência policial no mesmo dia, sim, eu tinha mais um estímulo a participar.

Afinal, em aglomerações, em eventos conturbados, quando falta argumento, as pessoas podem acabar cedendo a instintos animais, mas a habilidade do animal racional é não se deixar levar por isso.

Resumindo essas propostas nesse contexto, fiz meu cartaz para participar da manifestação popular que partiu do Largo de Pinheiros na segunda-feira, 17 de junho.

2. De ratos e homens

Minha adesão a esse movimento apartidário e ainda sem forma definida coincidiu com o esclarecimento dos veículos jornalísticos brasileiros, que passaram a separar “baderneiros”, “organizadores dos movimentos” particulares e “manifestantes” em geral, com suas demandas diversas (de “queremos hospitais padrão FIFA” a democracia direta ou, no meu caso, a denúncia das regras atuais do jogo de poder).

Marchei do Largo de Pinheiros aos Jardins pela avenida Faria Lima, constatando o amadurecimento político de muitos dos presentes, mesmo quando discordavam (alguns contra e outros a favor da partidarização do movimento, alguns pelo serviço público privatizado de qualidade, outros pela estatização).

É claro que os instintos animalescos continuam presentes em nossos corpos. Atento aos riscos das grandes aglomerações, percebi que um “manifestante” que tentava “conversar comigo” na verdade agia como um punguista. Antes que ele tivesse oportunidade para efetivar seu delito, perguntei por que sua mão estava tão colada a meu bolso. Como um rato no mato, o bicho desapareceu na multidão,  vestindo a carapuça de batedor de carteira. Outros podem ter perdido objetos de valor, mas não foi por isso que deixei de acreditar em construir com as pessoas um castelo de ideias.

No dia seguinte, 18, a oposição entre civilização e barbárie atingiu um grau tão elevado de sofisticação que se justifica a notoriedade internacional que os eventos já recebem: uma minoria depreda a prefeitura, a maioria até reorganiza as grades colocadas pelas autoridades. Bandidos saqueiam lojas, a população, mais esclarecida, percebe a diferença entre política e caso de polícia.

3. Humanismo

A sociedade é uma constante construção humana; a omissão e a alienação também são formas de participar. A escolha é de cada um. Quando voltava para casa na noite de 17 de junho, muita gente ainda acorria para a elogiada manifestação pacífica em São Paulo. Nos Jardins, enquanto procurava um lugar onde tomar ônibus, um garoto pediu meu cartaz. “Leia a mensagem primeiro. Você concorda?”, perguntei. O jovem, aparentemente filho da sociedade abastada que habita aquele bairro, mostrou-se satisfeito com o texto. Talvez não lhe tenha passado pela cabeça que o poder econômico de seus pais seja fruto e semente de muita injustiça, antônimo de colaboração. Mas ele provavelmente avançou um passo nessa direção. E levou meu cartaz (agora nosso cartaz) de volta à luz: “mais colaboração, menos abuso de poder”.

Quando é jogo

•2013/05/19 • Deixe um Comentário

A palavra “jogo” suscita expectativas antagônicas: pode ser brincadeira livre ou regrada, futilidade ou seriedade. Sua invocação, portanto, pode servir tanto para desmerecer uma atividade (“é apenas um jogo”) quanto para obrigar à obediência (“são as regras do jogo”).

Esse jogo com a palavra é um dos fundamentos da peça Em nome do jogo. Quando vi o cartaz, que nada tem de lúdico, não associei o nome do autor, Anthony Shaffer, ao título original, Sleuth (em Inglês, “detetive”). Trata-se, sim, de uma tradução da peça de 1970, que em 1972 tornou-se mundialmente famosa por meio do filme conhecido como Jogo mortal.

Portanto há uma tradição brasileira em traduzir o texto favorecendo o lúdico em detrimento do policial. Não é um problema: a obra fala de crime e mistério, mas aquela questão fundamental (quando é jogo, quando é seriedade?) subjaz a toda a ação.

Na peça, um escritor de romances policiais envolve um jovem num “jogo”. Nada surpreendente, já que a literatura policial pode ser vista como um jogo entre autor e leitor (que tenta decifrar enigmas propostos pela obra). Diferentemente de um jogo frívolo, o jogo proposto pelo velho pode envolver crimes. Mesmo assim, como num jogo de cartas ou tabuleiro, o homem exige que ambos respeitem o círculo mágico, isto é, sigam as “regras”.

A atual montagem acrescenta, ao jogo entre as personagens e ao jogo de decifração proposto pelo autor à plateia, um outro nível de ludicidade. Os atores Marcos Caruso e Erom Cordeiro imprimem bastante humor à interpretação, estabelecendo um jogo metalinguístico com a seriedade da narrativa policial.

Recomendável, portanto, para adultos dispostos a brincar.

Divulgação

Em nome do jogo

Onde: Teatro Jaraguá, em São Paulo.

Quando: sexta-feira, 21h30; sábado, 21h; domingo, 18h. Até 30 de junho.

Triarquia dos refrigerantes perdidos

•2013/04/16 • 2 comentários

Num acesso repentino de desejo de comer uma boa pamonha, fui conhecer o Tubaína Bar.

O lugar é cuidadosamente decorado em estilo retrô (a casa vende bem a ideia de que reaproveitar mobília e louça é ecologicamente correto). Para quem estuda a cultura brasileira de forma ampla, esse boteco chique tem o evidente apelo de reunir rótulos de todo o país. Mas creio que a maioria dos frequentadores esteja interessada mesmo é em comida gordurosa e bebidas gasosas.

É claro que acompanho a definição estrita de “tubaína”, que aprendi com meu primo Zug (ele dedicou um trabalho de conclusão de curso a essas delícias): tubaína é o refrigerante de guaraná com o sabor artificial “tutti frutti”. Acrescento que seu veículo ideal é a garrafa de vidro de 600 ml.

O Tubaína Bar tem uma definição mais rasteira de tubaína, chamando por esse nome vários “refrigerantes populares”. O lado bom é que a casa tem muitas opções de refrigerante de diversos sabores e vários cantos do Brasil (embora, aparentemente, a bebida de maior sucesso ali seja a peruana Inca Kola).

Inspirado por essa experiência, lembro três refrigerantes que considero notáveis. Não que eu reverencie as bebidas doces e gasosas. Mas é interessante quando a cultura popular resolve tratar os refrigerantes como se fossem objetos dos enólogos ou chocolatiers. Pois desse modo é quebrada a regra de exclusividade dos produtos de luxo, a lei da efemeridade dos vinhos, que não se repetem de safra a safra: refrigerantes são baratos e, até certo ponto, são produzidos com as mesmas qualidades por muitos anos. Para evidenciar o contraste entre alta cultura e cultura “pop”, talvez eles mereçam uma análise em estilo enológico.

Quando se trata de bebidas curiosas, reinam (pelo menos em minha mente) estes refrigerantes, que eu gostaria muito de ter conhecido em garrafa de vidro:

1. O rei do Maranhão

Não, não se trata de alguma família de políticos em atitude paradoxal diante do republicanismo brasileiro. Este comentário trata de bebidas gasosas. É claro, portanto, que o rei do Maranhão é o Guaraná Jesus.

Foto: Flávio Chubes, Deborah Vasques, Paulo Filipe, Lucas Queiroz e Thiza Vasquez

Eu demorei para experimentá-lo (talvez porque eu nunca tenha ido ao Maranhão), mas bons cunhados me presentearam com essa célebre fórmula rosada numa latinha de alumínio.

Análise do Guaraná Jesus – Sua coloração rosé aberta surpreende o mais acostumado bebedor de guaraná. O sabor adstringente incomodou o especialista aqui, mas agrada a quem gosta de uma boa agulhada.

2. O rei no exílio

O Mineirinho é, além de um refrigerante curioso, um dos favoritos deste crítico. A base de chapéu-de-couro, a bebida faz bonito em qualquer almoço em família. Diz a lenda que o grande sucesso motivou a saída do fabricante da Zona da Mata mineira para o Rio de Janeiro, onde é produzido e celebrado.

Análise do Mineirinho – A coloração acastanhada intensa contrasta com a impressão aveludada na boca. Encorpado, o “refri” combina elegantemente as madeiras do chapéu-de-couro com o açúcar residual.

3. O rei posto

O Abacatinho foi o grande rival do Mineirinho em meados do século XX. Diz-se que o sucesso do Mineirinho em Ubá era tamanho que o mesmo químico foi contratado para elaborar a fórmula do concorrente, com a folha do abacateiro substituindo com sucesso o ingrediente-base do mais antigo. Aparentemente incomodou o Mineirinho, que foi fazer sucesso fora.

Ouvia com curiosidade o relato de meu amigo Yuri, de Ubá, sobre essa bebida (que não tem gosto de abacate). Dos três analisados, é o refrigerante mais difícil de encontrar, ficando restrito àquela região mineira. Graças a um irmão que viaja muito, tive o prazer de prová-lo.

Análise do Abacatinho – Frutado, mais curto e fugidio que o rival. A vantagem é que é uma bebida menos adamada.

ErnaneAbacatinho

(Sim, a pamonha era ótima!)

Lista: três candidatos ao Oscar

•2013/02/15 • 1 Comentário

Indicação ao Oscar pode não ser atestado de qualidade para um filme, mas sempre chama atenção. Coincidentemente, os três filmes que me levaram mais recentemente às salas de cinema são finalistas da categoria “melhor filme” dessa premiação.

O divertido nessa coincidência é que os três usam abordagens narrativas bem distintas; qual dessas queremos privilegiar? É disso, e não de suas chances em algum prêmio, nem de suas origens na literatura e na história, que se fala superficialmente abaixo.

1. Contemporânea ironia: Django livre

Stacey Sher, Reginald Hudlin and Pilar Savone, Producers

Já estamos acostumados há umas duas décadas à violência ridícula, ao excesso que transcende os clichês que Quentin Tarantino muito bem sabe explorar. A vantagem das produções desse diretor é que, diferentemente da violência gratuita típica dos filmes dos anos 1990 em geral, suas películas sempre foram, no mínimo, questionadoras de padrões estéticos. Mas podemos esperar mais que isso. E Django livre entrega: mais que uma paródia de faroeste, apresenta uma interessante provocação sobre racismo. A ironia fica completa com uma dose cavalar de anti-heroísmo e um paralelo com a mitologia nórdica. Recomendável para quem ainda não se cansou de ver sangue jorrar.

2. O romantismo de sempre: Les misérables

Tim Bevan, Eric Fellner, Debra Hayward and Cameron Mackintosh, Producers

Em seus cinco volumes, desconfio que o romance histórico Os miseráveis, de Victor Hugo, não seja só uma historieta de amor. Já as grandes produções do teatro musical, mesmo que se estendam por três horas ou mais, precisam condensar seus roteiros ao mais lacrimoso possível. Em outras palavras, o teatro musical faz parte daquele esforço civilizacional de manter no povo uma ideia ultrarromântica de arte. Les misérables, que mantém o título em Francês na produção teatral anglófona, é uma dos maiores sucessos dessa categoria.

O cinema “para a família” é, desde o desenvolvimento dos grandes estúdios, o porta-estandarte desse esforço, razão pela qual uma adaptação de musical para filme emocionante é coisa esperada com anseio. Ressalve-se que uma parcela grande daquela “família” não aguenta um filme totalmente cantado e abandona a projeção no meio.

Além de visualmente deslumbrante, Les misérables é uma produção que deixa entrever a alegoria social de Victor Hugo no meio da enxurrada de emoção. Recomendável para quem se inspira com histórias de redenção.

3. Alegoria é para ser universal: As aventuras de Pi

Gil Netter, Ang Lee and David Womark, Producers

Sei que incorro em ingenuidade ao tratar uma grande produção como “filme de autor”, mas digo: Ang Lee não decepciona quando se propõe a traduzir uma proposta para filme. Que sua homenagem ao cinema de artes marciais seja minha prova favorita.

Como o mais interessante no filme é a alegoria que se apresenta, podemos passar batido sobre a discussão de originalidade ou imitação no romance que lhe deu origem, o qual retoma o tema de uma obra de Moacyr Scliar. Não li o romance de Yann Martel, mas sei que construir uma alegoria em texto é diferente de fazê-la em filme. Na arquitetura do romance, os nomes das coisas são explícitos. O tempo para desenvolver as relações entre as coisas permite apresentar melhor a ideia que não é dita, o discurso alegórico. A representação cinematográfica escolherá alguma coisa (e, felizmente, este filme não privilegia só “as aventuras” ou as lágrimas).

Viajar pelo oceano acompanhado de um tigre é metáfora de quê? O filme dá pistas, mas não é o drama barroco alemão; se aparecer algum fantasma, ele não vai vir carregando uma bandeira com seu nome e significado. Ou estou enganado? Se o filme fosse produzido para um público afeito ao discurso alegórico, talvez tivesse uma estrutura ligeiramente diferente e não precisasse de um final anticlimático, em que a fantasia é quebrada e tudo se explica. Mesmo assim, eu torceria por um filme como este numa premiação. Pois ele é a arquitetura da metáfora em imagem e som; é belo e sábio, mesmo quando horrível; tem a artística pretensão da atemporalidade. Recomendável sem restrições.