Nossas fantasias de Carnaval

•2018/02/09 • Deixe um Comentário

Não pegar as estradas cheias e aproveitar o Carnaval na cidade é uma excelente opção que tenho escolhido em São Paulo repetidamente desde 2015 e, como noticiado (https://guia.folha.uol.com.br/passeios/2018/02/de-punk-a-sertanejo-escolha-entre-55-blocos-de-carnaval-em-sp-para-cair-na-folia.shtml), tem batido recordes.

Mas é claro que o que se deve registrar no florescimento do Carnaval de rua é a evolução em civilidade, com a mistura de culturas e classes bem proporcionada pelos “bloquinhos” paulistanos.

Espero que em 2019 não digam que “agora virou carne de vaca” ou “perdeu de vez sua essência”. Um dos maiores trunfos da cultura brasileira é a fusão; a confusão carnavalesca desta cidade crossover gera conflito no burburinho, mas também gera novidades geniais.

BaileCarnavalOficina

Às vezes os amigos são fantasia suficiente

Eu achei que estivesse fantasiado, mas ninguém percebeu

Parabéns a quem veste fantasias sofisticadas – vestidos de noiva, chapéus de desfile, sapatos desconfortáveis. Neste caso, a dica é para quem quer pular o Carnaval e só tem roupas comuns.

O roteiro de fantasias toscas começa agora (eu fiz algo parecido e recomendo):

Nome do bloco – fantasia – comentário

Bloco Tarado Ni VocêMoacyr, o índio que vendeu favores para traficantes fluviais – pintura de índio é fácil e fica bem evitando boca e nariz. Porém você não quer ser um estereótipo! Meta uma camisa de time internacional e diga que foi presente do patrón: é uma personagem, não um clichê.

Bloco Casa ComigoBandeirante, Mateiro ou Conquistador – bloco mais popular precisa somente de uma espada ou uma bainha! Improvise uma, ponha seu capacete mais caipira [qualquer chapéu que não seja boné], bermudão e aquela camisa de pirata que você não usa.

20160131HNBloco EsfarrapadoFantasma – O movimento de “ocupar a rua” a que nos acostumamos em São Paulo merece ser celebrado com o bloco antigo e combina com uma caveira barata, um corpse paint de leve.

Na falta de Bloco Soviético, em qualquer momento que quiser aproveitar a festa para lembrar a necessária política – Foices e martelos no rosto – Devem ajudar a chamar os paneleiros para a folia! Se eles souberem brincar.

Aos amigos que me levaram às ruas e não me deixaram passar vergonha sozinho:

“We Are Your Friends”, de  Justice Vs Simian (https://www.youtube.com/watch?v=L0TvnWRSyr4)

 

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Pano preto

•2015/04/04 • Deixe um Comentário

Para quebrar o silêncio desta página, a administração planejava a edição de um poema, mas o autor não o entregava. O mais novo espetáculo solo de Mariana Muniz serve como um vestido preto para o pobre poema de Ernane, que por isso vem como apêndice ao comentário sobre a peça teatral.

D’Existir, de Mariana Muniz

O espetáculo D’Existir dialoga com Mal Visto Mal Dito, texto de Samuel Beckett de 1981. A dança da professora Muniz tem uma linguagem prenha de quebras sintáticas (ou recriação da sintaxe do corpo); seu encontro com Beckett potencializa essa característica com elegância. Ademais, o espectador acostumado espera de Mariana a ênfase no uso dos objetos cênicos; um guarda-chuva e o vestido preto são os destaques na feminina apresentação.

De maneira geral, trata-se de uma peça com várias camadas de preto, como tom da abordagem a questões como morte e vida, ser ou não. As cenas sucedem-se recursivamente, como repetição e revisitação de motes como “Vênus” e “sol”.

Foto: Divulgação

O espetáculo viaja pelo Estado de São Paulo. A turnê está começando:

2, 3, 4 e 5 de abril de 2015 –  São Paulo – Top Teatro

11 e 12 de abril – Guarulhos – Teatro Adamastor

18 de abril – Suzano – Contadores de Mentira

19 de abril – Santana De Parnaíba – Cine Teatro Coronel Raymundo

25 de abril – Votorantim – Parque Ecológico Matão – Espaço Ambiente Coreográfico

Mais informações em http://www.ciamarianamuniz.com.br/


Só mais um poema no escuro

Os motes mais concretos podem ser diversos, a obra recomendada acima certamente tem mais apuro, mas o poema abaixo visa algo de semelhante em tom (nada de cores berrantes, mesmo que os temas sejam gritantes).

Vivo, sim

Deito. 
Em torpor 
Contemplo 
Meu corpo. 

Não há rebanho
Todos são feras 
Não há amigo clemente
Nem benfeitor que não leve uma faca. 

Nesta caverna escondo meu corpo 
Eu saio, enfrento os estranhos 
E trago frequentes despojos 
Para o monstro que habita comigo. 

Não posso fugir deste bicho 
Que confundem comigo 
Porque está em minha pele. 
Se é contra ele, não é autoflagelo. 

Não é timidez se o faço calar 
Porém ele sempre está aqui. 
Em sangue e com sede pintamos a caverna 
Meu sangue, boca seca de ambos. 

Torto 
Em torpor 
Não mau 
Nem morto.

VivoSim

Guimarães e Lima orgulhosamente apresentam

•2014/09/21 • 5 comentários

Meu parceiro Leonardo Lima e eu recebemos neste fim de semana nossos exemplares do livro Narrativas e personagens para jogos, lançamento da editora Érica.

Fiquei orgulhoso com esse produto, que esperamos ser um bom guia introdutório à criação em jogos eletrônicos (e uma discussão sobre narrativa em geral). Empolgado, insisti muito para que Soraia Scarpa me ajudasse a compor a figura abaixo a partir de uma garrafa. É um mago ao estilo clássico Final Fantasy, minha sugestão de ilustração para a capa da segunda edição!

MAGELIVROfb

Faremos uma sessão de lançamento no dia 7 de outubro, terça-feira, das 16h30 às 19h, na Funbox Ludolocadora (Rua Vergueiro, 439, loja 27 – perto do metrô Vergueiro). O evento integra a programação do Fórum Acadêmico de Estudos Lúdicos.

Jornal repetido

•2014/08/25 • Deixe um Comentário

 

Mais200708Tive de reorganizar minha coleção de jornais do tempo em que eu era funcionário da Folha da Manhã. Guardo bastante colaboração ao jornal Folha de S.Paulo; o maior volume corresponde à época em que trabalhei no caderno Mais!, de 2006 a 2010.

Organizando agosto de 2007, notei que um assunto de destaque naquele mês era um dos destaques do agosto presente: os recordes da violência étnica.

A edição de 19.ago.2007 destacava o Iraque. Quadrinhos de Joe Sacco ilustravam aspectos militares da transformação do país de território ocupado a frágil reunião política de grupos rivais. Para aquele número, entrevistei o diretor da Biblioteca e Arquivo Nacional do Iraque, Saad Eskander. O administrador lamentava o descaso dos próprios iraquianos em relação ao legado cultural de seu país.

Um nome que raramente se ouve, mas é recorrente em 2014 e estava então no noticiário, é o da cultura yazidi. Os yazidis são uma minoria isolada nas montanhas iraquianas; massacres a membros dessa cultura, de religião pré-muçulmana, aparecem quando sobra ódio “fundamentalista”. As aspas nesta palavra são para lembrar que a violência não se apoia em “fundamentos”, mas na ignorância.

Procuro o nome “yazidi” no sítio da Folha; noto que toda notícia com essa palavra nestes sete anos foi relacionada a violência sectária. Um texto recente de Igor Gielow explica como um velho preconceito (confundir o Deus Pavão dos yazidis com o “diabo”) é usado como justificativa à perseguição.

O jornal ajuda a mostrar como a história se repete. O comunicador, no entanto, pode encarar a repetição como uma oportunidade. Como pode o jornalista, por exemplo, dialogar com os ciclos da história iraquiana recente? Alguns apenas repetirão o quadro com o número de mortos da semana; outros podem ousar perguntar como vão as coisas na biblioteca, nas escolas, se eles leem quadrinhos de reportagem, se alguém lê jornal.

MaisBox

Dois anos de FFF

•2014/05/15 • 3 comentários

Como passaram rápido! Faz dois anos que defendi minha dissertação de mestrado, Formas de Fazer Ficção (ErnaneFFFex), pelo programa de Tecnologias da Inteligência e Design Digital, na PUC-SP. O professor Luís Carlos Petry orientou esse encontro entre Filosofia, Ludologia e livro.

Na época, fiz até um diorama universitário, de modo que pude contar em três quadrinhos como foi a defesa.

Desde então a pesquisa sobre jogos e narrativa continua, principalmente na condição de professor de criadores de jogos. Quanto à dissertação, acredito que muita gente ainda precisa pensar no devido potencial das narrativas eletrônicas.

FFFcapa

 

 

 

 

Sonho de professor

•2014/03/28 • 5 comentários

Não creio que dizer “sonhei com meus alunos” seja revelar demais da psique de qualquer professor com centenas de alunos e dezenas de horas-aula por semana. O que me chamou a atenção num sonho recente foi o formato de filme de sessão da tarde.

O clichê estava em formar, de um amálgama de meus alunos de Jogos Digitais e Comunicação, um time de futebol (ou algo do gênero, lembra-me a confusa narrativa onírica). Primeiro, o diálogo com alguns de uma multidão de alunos em graus muito diferentes de interesse e preparo mostrou as dificuldades que o profissional encontra diante do novo desafio. Uma fantasia que apareceu neste caso foi poder selecionar os integrantes de meu time. A história prosseguiu com naturalidade para o videoclipe. Imaginemos que a edição acrescentará uma música entre leve e empolgante: o professor pode recusar alunos, porém conversa com alguns “casos perdidos” e os motiva a persistir; a aluna dedicada já está selecionada, mas precisa de uma advertência, pois neste time não vai ter moleza; vários são vistos numa sequência de exercícios físicos, preparando-se para algo que não era esperado: o sucesso.

Lembrar esse sonho em meio a uma série de avaliações escolares, em que os alunos apresentam pesquisas, produzem jogos, realizam provas, fez-me pensar no estereotípico estilo cinematográfico do “filme de professor”. Alguns espectadores aceitam bem a fórmula do profissional que vence, com esforço persistente, o desafio (eu costumo cair nessa, pois persistência faz sentido). Outros podem questionar uma tendência, nessa fórmula, a desprestigiar a própria classe do professor, ao glorificar a irreverência ou qualquer método pouco usual de ensino como solução do problema.

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Imagem de “Escritores da Liberdade” (2007), protagonizado por Hilary Swank.

Existe evidentemente uma grande diferença entre o ridículo de um filme para a matinê em família e abordagens mais adultas ao tema, como Entre os muros da escola e A Onda. Mesmo assim, várias obras influentes sofrem bastante nos textos dos críticos justamente pelo tom adotado (penso em casos como Sociedade dos Poetas Mortos ou, mais recentemente, Escritores da Liberdade).

Apesar dos casos bizarros e do exagero trágico de algumas obras, filmes sobre mestres e estudantes ajudam o professor a pensar em maneiras de motivar e pôr num bom nível sua multidão de alunos em graus muito diferentes de interesse e preparo. Entretanto uma parte mais numerosa dos espectadores também precisa ajudar: os alunos.

 

Minha página em Inglês

•2014/02/14 • 2 comentários

Velhas novidades alhures! No mesmo ritmo lento desta página, venho construindo uma página em Inglês, dedicada a temas lúdicos variados. É o He Nan’s blog. Fica a divisão: aqui continuo a escrever sobre cultura e linguagem, Arte e Filosofia, talvez algo de Ludologia, numa abordagem mais acadêmica ou voltada à divulgação de eventos brasileiros.

Na página que perco a vergonha de compartilhar, dialogo com meus amigos de jogo e brinquedo mundo afora e, oxalá, estimulo a leitura em língua estrangeira de meus alunos brasileiros.

Lá falei de Playmobil (mais de uma vez), de Final Fantasy, de G.I. Joe.

Agradeço ao Celso Ferreira pelo incentivo e pela revisão da maioria dos textos (a forma final é de minha responsabilidade, portanto minha culpa se ficam problemas). Valeu, Celso!

soldadoIngles

Advertência: o padrão ortográfico do sítio mencionado pode não ser britânico.