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Queime minha língua: direito tipográfico

Existe uma área de conflito nas comunicações, uma zona de guerra entre artistas gráficos, revisores e comerciantes: trata-se da acidentada região em que tipografia, sintaxe e marca entram em choque.

Tenho sido obrigado a escrever acrônimos de montão, nomes de produtos e marcas novas e fico pensando em como grafar: TIDD ou Tidd? Ipad ou iPad?

A quem pertence o direito sobre a grafia de um nome? A maior parte da ortografia em Português está, bem ou mal, fixada por um acordo político. Mas alguns casos são um pouco mais complicados.

Para começar, designers não ligam muito para a função sintática do emprego das maiúsculas e minúsculas. “Começar frase com caixa-alta-e-baixa? Nome próprio? Isso é coisa do passado”, dizem. Guiam-se na fase mais extremista do influente artista gráfico Jan Tschichold (1902-74), que em geral advogava uma diagramação funcional, sem “frescuras” ou rebuscamentos.

É verdade que adoro invocar sua autoridade, por exemplo em A forma do livro, na hora de lembrar aos diagramadores que basta um destaque para realçar uma palavra, que é desnecessário misturar negrito com sublinhado e itálico, como às vezes acontece. Mas a letra maiúscula não é um destaque exagerado; ela tem usos (diz quando é nome próprio, quando se inicia um período etc.).

Alguns intelectuais gostam de se rebelar contra certas regras. Daí lermos frequentemente o nome de E. E. Cummings (1894-1962) em minúsculas; suponho que a motivação de Valter Hugo Mãe para pedir que escrevam seu nome artístico em caixa-baixa seja semelhante.

Todo homem é uma marca. Pelo menos pelas regras do jogo em que vivemos. Fica mais evidente o “litígio tipográfico”: o dono do nome considera-se prejudicado se sua marca não é fielmente reproduzida, mesmo que entre em conflito com outras normas de escrita.

Será que muita gente gastou tempo inserindo em seus textos esse desenho no lugar do nome do Prince?

O problema é mais comum com nomes comerciais ou “fantasia”: a exposição que “aLterNa” maiúsculas e minúsculas  pseudopoeticamente, o PRODUTO que se quer em letras todas maiúsculas.

Até que ponto o senhor iPad pode dizer que seu nome contém um “prefixo” que justifica uma regra especial, da mesma maneira que os senhores “MacDonald” ou “da Silva”, que tanto problema têm para que seus nomes saiam escritos corretamente por aí?

Gosto da seguinte solução: cada “sistema” (cada publicação, cada veículo) busca a coerência interna segundo suas regras.

Assim, num livro de poesia, pontuação e tipografia podem ser ótimos brinquedos.

Nos anos em que trabalhei na Folha, acostumei-me a escrever como palavras as siglas de quatro ou mais letras que possam ser pronunciadas como palavras; para o jornal, estudo no “Tidd” e fui da “USP”. É um padrão muito usado em outras publicações.

Outro padrão comum é aceitar a salada tipográfica como oferecida pelos comerciantes.

Tendo a preferir (não muito longe do que ensina Tschichold) a funcionalidade mais básica: acrônimos em maiúsculas, nomes comuns em minúsculas etc. Se concordarmos que o aparelhozinho da Apple é um substantivo comum, conseguirei eu escrever “um ipad”?

Se um dia eu for obrigado a corrigir algum padrão em favor de uma invencionice, proponho assinar minha carta de retificação da seguinte maneira: “Ernane Guimarães Neto (lê-se Rei do Mundo, sempre escrito em fonte Bookman Old Style)”.

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